Por Paulo Dourado

Foto: Reprodução / SIB
Nesta quarta-feira (18), o Brasil celebra o Dia Nacional da Imigração Judaica, data que reconhece a contribuição do povo judeu para a formação da sociedade brasileira. A data foi instituída por lei em 2009, a partir de proposta do então deputado Marcelo Itagiba, e sancionada pelo então presidente em exercício José Alencar.
A escolha do dia 18 tem significado simbólico: em hebraico, o número corresponde à palavra “chai”, que significa “vida”. Além disso, em 18 de março de 2002, foi reinaugurada, em Recife, a Sinagoga Kahal Zur Israel.
Para entender a presença judaica na Bahia, o Bahia Notícias ouviu especialistas e representantes da comunidade local, que destacaram diferentes momentos históricos da imigração.
A doutora em História Social e professora da Universidade do Estado da Bahia, Suzana Maria de Sousa, explica que a presença judaica no estado pode ser dividida em dois grandes períodos: o primeiro, entre os séculos XVI e XVIII, durante o Brasil Colônia; e o segundo, a partir do século XX, especialmente no contexto da Segunda Guerra Mundial.
Segundo a historiadora, os chamados “cristãos-novos” chegaram ao Brasil fugindo da perseguição da Inquisição. Apesar de enfrentarem discriminação, conseguiam conviver e até estabelecer relações comerciais com outros grupos da sociedade colonial.
“Então, quando eles aqui chegaram, se misturavam com a população, mas eram discriminados. Havia convivência, relações comerciais e amizade, mas, quando a Inquisição expedia mandados de prisão, descobria-se a origem judaica e a situação mudava”, explicou.
Com o passar dos anos, muitos desses imigrantes passaram a ocupar posições de destaque econômico, como senhores de engenho. Um exemplo citado é o de Heitor Antunes, que teria construído uma espécie de sinagoga clandestina, chamada de “esnoga”, na região onde hoje fica Candeias.
“Ele construiu um latifúndio e, mesmo com a proibição de práticas religiosas judaicas, mantinha atividades de forma escondida”, relatou a professora.
Já no século XX, a imigração ganhou novo impulso com a chegada de judeus vindos da Europa, principalmente da Rússia, Romênia, Polônia e da região da Bessarábia. Esse movimento marcou o início de uma organização comunitária mais estruturada em Salvador.
O presidente da Sociedade Israelita da Bahia, Mauro Brachmans, explica que a presença mais organizada da comunidade começou por volta da década de 1920.
“Existem dados históricos desde a chegada de Cabral, com os cristãos-novos, mas a presença mais estruturada começa nos anos 1920. Em 1925, foi criada uma pequena sinagoga em uma residência particular, e já havia uma vida comunitária com judeus vindos da Europa”, afirmou.
A organização formal da comunidade, segundo ele, se consolida a partir de 1947, mantendo atividades até os dias atuais.
Hoje, Salvador conta com sinagogas em funcionamento, como a da própria Sociedade Israelita da Bahia, localizada na Pituba, e outra ligada à linha Beit Chabad, na Barra. Apesar das diferenças religiosas, as instituições mantêm relações harmoniosas.
Além das atividades religiosas, a comunidade promove ações culturais, educacionais e sociais abertas ao público.
“Nós temos diversas atividades, que vão do aspecto religioso até iniciativas com crianças, jovens e eventos sociais. É um conjunto de ações voltadas para a comunidade e também para quem deseja conhecer mais”, destacou Mauro.
Sobre o antissemitismo, ele afirmou que há preocupação, embora considere o ambiente local mais tranquilo em comparação a outras regiões do mundo.
“Existe sim essa preocupação. Esse tipo de racismo pode provocar reações impensadas e, por isso, atuamos junto às autoridades para coibir qualquer forma de discriminação. Precisamos estar atentos”, concluiu.


