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Cotas ampliam acesso à medicina, mas não garantem vaga na residência, diz estudo



Por Cláudia Collucci | Folhapress
Foto: Divulgação/ UFTM


As políticas de ação afirmativa têm conseguido ampliar o acesso à graduação em medicina, mas não eliminam as desigualdades na etapa seguinte da formação. Médicos formados por cotas em universidades públicas tiveram 27% menos chance de ingressar na residência médica em relação aos demais colegas.


Os dados são de um estudo nacional da USP (Universidade de São Paulo) que analisou mais de 110 mil egressos entre 2018 e 2022 e acompanhou sua entrada em programas de especialização até 2024. A análise envolveu diferentes bases administrativas e educacionais.


O objetivo foi avaliar como políticas de inclusão, traduzidas por cotas raciais, sociais e de renda, nas instituições públicas, e apoio financeiro, nas privadas, influenciam o acesso à residência médica, principal via de formação de especialistas no país e um dos gargalos mais competitivos da carreira.


Segundo o pesquisador e professor da USP Mario Scheffer, um dos autores do estudo, a medicina foi uma das últimas áreas a aderir às cotas e, nos últimos anos, passou a apresentar um volume maior de estudantes beneficiados nas universidades públicas.


"Como defensores das políticas afirmativas, também temos interesse em medir o efeito delas", diz. O estudo é resultado do pós-doutorado da pesquisadora Paola Mosquera, orientada por Scheffer.


Os dados mostram que as ações afirmativas cumpriram um papel decisivo na diversificação do perfil dos estudantes de medicina. Nas universidades públicas, 28,1% dos formandos ingressaram por algum tipo de cota.


Entre eles, apenas 35,6% se autodeclararam brancos, enquanto 49,8% se identificaram como pardos e 12,1% como pretos. Quase todos (95,3%) vieram de escolas públicas de ensino médio, evidenciando o alcance social da política. Entre os não cotistas, os estudantes brancos eram dois terços do total.


Nas instituições privadas, onde hoje se forma a maioria dos médicos no Brasil, 44,5% dos estudantes receberam algum tipo de apoio financeiro, como bolsas do Prouni (Programa Universidade para Todos) ou financiamento pelo Fies (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior).


Esse grupo também apresentou maior diversidade racial e social do que os colegas sem auxílio, ainda que de forma menos acentuada, do que entre os cotistas das universidades públicas.


Quando o foco se desloca para a residência médica, porém, as diferenças se aprofundam. No conjunto da amostra, 55,7% dos egressos conseguiram ingressar em algum programa de residência.


Entre os formados em universidades públicas, a taxa foi de 62,8%, mas caiu para 52,8% entre os cotistas. Já nas instituições privadas, o padrão foi inverso: 55% dos estudantes com apoio financeiro entraram na residência, contra 50,5% dos que não receberam auxílio.


Mesmo após ajustes estatísticos por sexo, raça, idade, região do país, tipo de escola e qualidade da instituição medida, entre outros fatores, pela nota do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), a desigualdade persistiu.


Embora o estudo aponte que os egressos de universidades públicas admitidos por cotas tiveram 27% menos chance de acessar a residência médica, Mosquera ressalta que a base de dados permite identificar apenas se o médico ingressou ou não na residência, mas não se ele chegou a prestar o exame.


"A gente não tem os resultados das provas nem sabe quem tentou e não passou. Só sabemos quem entrou", explica.


Para Scheffer, a hipótese mais provável é econômica. "Muitos cotistas precisam entrar imediatamente no mercado de trabalho e nem se apresentam para a residência", diz.


Segundo ele, trata-se de um grupo que frequentemente é o primeiro da família a concluir o ensino superior e que pode enfrentar maior pressão para contribuir com a renda familiar. "Ampliar o acesso não significa, automaticamente, garantir permanência e progressão."


Já nas faculdades privadas, o apoio financeiro parece exercer efeito distinto. Estudantes que receberam bolsas ou financiamento apresentaram 23% mais chance de ingresso na residência em relação aos colegas sem auxílio.


Para os autores, o suporte durante a graduação pode reduzir a pressão econômica imediata após a formatura e facilitar a continuidade da trajetória acadêmica.


As desigualdades também se refletem na escolha das especialidades. Embora clínica médica, cirurgia geral, pediatria, ginecologia e obstetrícia figurem entre as áreas mais disputadas em todos os grupos, a medicina de família e comunidade aparece com maior peso entre beneficiários de políticas de inclusão.


Entre os cotistas das universidades públicas, 15,3% optaram por essa especialidade, contra 9,7% dos não cotistas. Nas instituições privadas, 8,2% dos estudantes com apoio financeiro seguiram esse caminho, frente a 6,9% dos demais.


Na opinião de Mosquera, o dado reforça que as políticas afirmativas produzem efeitos que vão além do acesso individual ao diploma. "As políticas afirmativas não são benéficas só para o estudante, mas também para a sociedade posteriormente", afirma.


Segundo ela, os beneficiários tendem a apresentar um perfil mais frequente entre mulheres, médicos negros e pardos, profissionais mais velhos e egressos de regiões fora do Sudeste, características associadas, em estudos internacionais, a maior probabilidade de atuação em áreas socialmente vulneráveis.


Scheffer avalia que a maior escolha pela medicina de família e comunidade é um resultado estratégico para o sistema de saúde. "Há uma literatura que mostra que aproximar o médico das características das populações assistidas é benéfico para o sistema", diz.


Hoje, o Brasil tem cerca de 55 mil equipes de saúde da família, mas pouco mais de 16 mil especialistas titulados na área. "Existe uma defasagem imensa. Quando a especialidade é procurada, ela tem sido procurada por um perfil muito interessante."


O estudo também contextualiza os resultados no cenário da formação médica brasileira. Atualmente, cerca de 70% dos formandos vêm de faculdades privadas, enquanto o número de vagas de residência não cresceu no mesmo ritmo da expansão dos cursos de medicina.


Em 2024, aproximadamente 47,7 mil médicos estavam matriculados em programas de residência, em um sistema altamente competitivo e majoritariamente financiado com recursos públicos.


Para os pesquisadores, os achados reforçam que políticas de cotas e de apoio financeiro não devem ser tratadas como alternativas excludentes, mas como estratégias complementares. As cotas ampliam de forma mais contundente a diversidade racial e social, enquanto o suporte econômico se mostra crucial para garantir permanência e progressão na carreira médica.

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