Por Thiago Tolentino

Foto: Acervo Pessoal
O tatame que abriu caminhos para Ronaldier Rodrigues na infância tornou-se, mais de quatro décadas depois, um espaço de transformação para crianças e adolescentes de Salvador. Pentacampeão mundial de karatê, o sensei retornou ao mesmo bairro onde iniciou sua trajetória para oferecer a outros jovens a oportunidade que um dia também recebeu.
Atualmente, o projeto do qual Ronaldier participa atende gratuitamente cerca de 150 crianças e adolescentes nas comunidades de Pernambués e da Liberdade. A procura, entretanto, é ainda maior: mais de 200 jovens aguardam uma vaga, enquanto a falta de recursos impede a ampliação das atividades.
Em entrevista ao Bahia Notícias, Ronaldier explicou que sua dedicação ao trabalho social está diretamente relacionada à própria história.
"Sou oriundo de um projeto como esse e, coincidentemente, hoje atuo no mesmo bairro onde comecei. Fui convidado pelo GAP, que é o Grupo Alerta Pernambués, para fazer esse trabalho social, pelos benefícios que o karatê me trouxe. Eu prontamente aceitei", contou.

Foto: Acervo Pessoal
Faixa-preta 6º Dan, Ronaldier também atua como atleta, treinador, técnico da Seleção Baiana de Karatê Tradicional e presidente da Federação Baiana de Karatê Tradicional. Antes do trabalho desenvolvido em Pernambués, ele já participava de uma iniciativa semelhante no Colégio Luís Pinto de Carvalho, no bairro de São Caetano.
Apesar dos títulos e das funções ocupadas na modalidade, o professor considera que uma das suas principais conquistas está na possibilidade de utilizar o esporte para interferir positivamente na trajetória dos alunos.
“É a certeza de que estamos no caminho certo e que podemos contribuir e retribuir aquilo que a vida me proporcionou”, afirmou.
O projeto oferece as atividades de forma integralmente gratuita. Não há cobrança de mensalidades, exames de faixa ou participação em competições. Quimonos, luvas e outros equipamentos também são disponibilizados para que a falta de condições financeiras não impeça o acesso ao esporte.

Foto: Acervo Pessoal
Somando alunos, familiares e voluntários, o trabalho alcança direta e indiretamente cerca de 500 pessoas. A estrutura existente, porém, ainda não permite receber todas as crianças interessadas.
Para Ronaldier, precisar negar uma vaga a um jovem que procura o projeto é uma das partes mais difíceis do trabalho.
"É frustrante, porque a gente sabe dos benefícios que o karatê traz para a sociedade. Para nós, é muito ruim ter que dizer não, não poder receber mais crianças por causa da falta de incentivo e de estrutura", lamentou.
O projeto conta com o apoio do Grupo Alerta Pernambués e do Sindilimp, mas busca ampliar a participação do poder público e da iniciativa privada. Segundo o sensei, a chegada de novos parceiros permitiria melhorar a estrutura, adquirir equipamentos e atender uma parcela maior da fila de espera.
"Nós temos o apoio do GAP e do Sindilimp, que nos apoiam de certa forma, mas isso poderia ser ampliado. Se tivéssemos uma ajuda governamental e do empresariado baiano, poderíamos oferecer tudo aquilo de que essas pessoas precisam e na quantidade necessária", explicou.
Nas aulas, aprender a socar, chutar ou executar movimentos de defesa é apenas uma parte do processo. Disciplina, respeito, responsabilidade, controle emocional e perseverança também são trabalhados durante os treinamentos. Ronaldier acredita que a presença das artes marciais no ambiente escolar poderia contribuir para a formação de crianças e adolescentes.
"Eu costumo dizer que, se o Brasil fosse um país sério, a arte marcial seria matéria escolar. Todas as escolas teriam arte marcial de forma obrigatória, de forma regular, para ajudar na formação, na educação e na disciplina", declarou.

Foto: Acervo Pessoal
O sensei também associa ao karatê a capacidade que desenvolveu para enfrentar os obstáculos encontrados ao longo da vida.
"Na minha vida, foi a coragem para seguir em frente, para enfrentar os obstáculos e todas as mazelas da vida. Pelo fato de existir muita resignação no treinamento e de ser necessário se dedicar bastante às partes física, psicológica e emocional, isso fez com que eu tivesse uma mente muito positiva para as coisas", relatou.
Inserido em comunidades nas quais parte dos jovens convive com situações de vulnerabilidade social, o projeto também utiliza o esporte para apresentar alternativas à violência, às drogas, ao consumo de bebidas alcoólicas e a outros fatores de risco.
"O esporte, com toda certeza, é um vetor muito importante no lado social. Nós conseguimos fazer com que muitos jovens se desviem do caminho errado, da bebida, das drogas, dos excessos e de tudo aquilo que é tão fácil de ter acesso e ruim ao mesmo tempo", afirmou Ronaldier.
Segundo o professor, antigos alunos que enfrentavam problemas com dependência química conseguiram mudar de vida por meio da rotina de treinamentos.
"Eu tive vários alunos que eram dependentes químicos e, graças a Deus, graças ao esporte e à dedicação, eles conseguiram vencer as drogas, vencer a bebida e vencer os vícios apenas com a prática saudável", contou.
"Quando você precisa sair de uma coisa ruim, precisa preencher esse vazio com outra. O karatê serviu exatamente para o preenchimento desse vazio", completou.
Mesmo após cinco títulos mundiais e mais de quatro décadas dedicadas à modalidade, Ronaldier ainda mantém um objetivo fora das competições: comandar uma iniciativa social capaz de atender um número maior de crianças e adolescentes.
"Meu sonho era comandar um projeto social com uma dimensão muito maior, para que eu pudesse, de fato, mostrar a importância que a arte marcial pode ter e tem na sociedade de um modo geral", disse.
Para o sensei, o karatê também participa diretamente da construção do caráter de quem pratica a modalidade.
"Ela trabalha com a disciplina, trabalha com o respeito, na formação do caráter, forja a pessoa. Meu objetivo era realmente esse: poder um dia estar à frente de um projeto social grandioso, para que eu pudesse dar minha contribuição real a esses jovens e adolescentes", concluiu.

Foto: Acervo Pessoal

