Por Daniel Araújo

Foto: Marcello Casal jr / Agência Brasil
O consumo de informação no Brasil está mudando, e o Nordeste se destaca nessa transformação digital. Quase metade dos nordestinos (47,2%) usa as redes sociais para se informar sobre política, o maior percentual entre todas as regiões do país. Os dados são da pesquisa "Caminhos da Informação no Brasil: principais hábitos informacionais dos brasileiros por região", realizada pelo laboratório de pesquisa Aláfia Lab e divulgada recentemente.
A região também registra o maior índice nacional de uso das redes sociais como fonte geral de informação, com 57,8% da população recorrendo a essas plataformas. O cenário difere do Sudeste, onde a televisão continua sendo a principal fonte de informação política (48,4%), à frente das redes sociais (42,3%).
O levantamento quantitativo, realizado pelo Instituto IDEIA com 1.512 entrevistados em todo o Brasil no fim de setembro de 2025, mostra que o Instagram é a principal plataforma de informação para 52,4% dos nordestinos. Em contrapartida, o Facebook perdeu espaço e é citado como principal fonte de informação por apenas 5,2% dos entrevistados da região, o menor índice do país.
JORNALISMO E ENTRETENIMENTO
Para Ellen Guerra, pesquisadora do Aláfia Lab e uma das responsáveis pelo estudo, essa combinação altera a dinâmica do debate público. "No Nordeste, esse cenário é ainda mais forte", afirma, ao destacar os elevados índices de consumo de política pelas redes sociais. "Por um lado, essa dinâmica amplia a diversidade de atores que participam do debate público e facilita o acesso à informação. Por outro lado, essa convivência entre diferentes tipos de conteúdo reduz a percepção de hierarquia entre eles."
Segundo a pesquisadora, nesse ambiente, conteúdos jornalísticos, entretenimento, opiniões e desinformação disputam a atenção do público em condições semelhantes, o que dificulta a identificação de fontes confiáveis. "Outro aspecto importante é que essas plataformas são organizadas por algoritmos. Essa lógica pode reforçar bolhas informacionais, reduzir a diversidade de perspectivas às quais as pessoas são expostas e intensificar processos de polarização, já bastante acentuada no Brasil nos últimos anos", destaca.
WHATSAPP E DESINFORMAÇÃO
O estudo também aponta que o Nordeste lidera o recebimento de notícias pelo WhatsApp enviadas por amigos (74,8%) e conhecidos (57%). A região ainda registra o maior uso do Kwai entre as plataformas de vídeos curtos, com 27,9%.
Para Ellen Guerra, a circulação de informações por meio de pessoas próximas tem efeitos positivos e negativos. "Os laços de proximidade sempre foram importantes na circulação de informação. Receber uma notícia de um amigo ou de um familiar gera uma percepção de credibilidade, a confiança depositada na pessoa próxima é transferida para a informação que ela compartilha", explica.
Ela alerta, porém, para os riscos desse processo. "O desafio é quando a confiança na pessoa que compartilha a informação se sobrepõe à verificação da fonte, aumentando o risco de circulação de conteúdos falsos, desinformação e informações descontextualizadas." Segundo a pesquisadora, plataformas como WhatsApp e Kwai favorecem a rápida disseminação de conteúdos e exigem maior cuidado dos usuários na checagem das informações antes do compartilhamento.
COMUNICAÇÃO PÚBLICA
A migração do público do Facebook para plataformas como Instagram e TikTok amplia os desafios da comunicação pública. No TikTok, o Nordeste lidera o país tanto na busca por perfis de veículos de comunicação (42%) quanto no acompanhamento de políticos (35,8%).
Na avaliação de Ellen Guerra, governos, especialmente prefeituras e gestões municipais, precisam "ocupar os lugares onde as pessoas frequentam e onde o debate público está acontecendo".
Para isso, é necessário adaptar formatos e linguagem às características de cada plataforma. "Compreender quais redes são mais utilizadas, como no caso do crescimento do Instagram e TikTok, permite adequar a linguagem e formatos para as especificidades de cada rede. Vídeos curtos, conteúdos visuais e uma linguagem mais acessível podem ampliar o alcance de informações sobre serviços públicos, campanhas e políticas", afirma.
A pesquisadora também defende que a comunicação governamental assuma um papel mais ativo no enfrentamento à desinformação. "Governos também precisam investir em estratégias de combate à desinformação e de fortalecimento da confiança. Isso envolve produzir conteúdos claros, acessíveis e verificáveis, além de responder com agilidade a informações falsas que possam comprometer o acesso da população a direitos e serviços públicos", conclui.

